No jardim de inverno em minha casa mora um duende. Com seu corpinho pequeno, suas orelhas grandes e pontudas, a pele de cor estranha, sem definição. O olhar ligeiro, de pálpebras esbugalhadas. Aparece com raridade, não lhe agrada ser notória sua presença.
Nas esporádicas visitas de funcionário público que faz pelos outros cômodos e resolve parar e prosear, ele demonstra ser um sábio nas artimanhas da “maciota”. Adora burocracia. Faz pose de autoritário com a empáfia de quem devorou o rei.
Em seu mundo, um plano paralelo num encontro de arestas, a fantasia transcorre o limiar da imaginação, loucura, delírios e verdades.
São governados por um ser viscoso, morador das profundezas das águas temperadas na lagoa central. Seus mandos e desmandos nada valem, pois é cada um por si numa região de luta insana pela patacas (uma pedrinha brilhosa e transparente), morrem por elas se for preciso.
Para testar os filhos eles os atiram da janela para que possam aprender que quanto mais alto está maior é o tombo. Suas moradas são em troncos de árvores. Depois que a árvore morre são obrigados a procurar outra e, gananciosos, procuram sempre uma maior.
São guerreiros covardes!
Ele me contou que todos têm seu preço. Seu maior sonho é possuir um cartão corporativo, semelhante ao do nosso governo.
Em seu mundo não existe violência nem preconceito, porque todos os diferentes são empilhados na vala do ostracismo e soterrados pela vergonha de possuírem um dos locais mais puros da região. Ironia? Talvez não. Mesmo sisudos e bicudos, todos ali sabem que suas máscaras não escondem o íntimo.
Um mundo irreal. Dou graças por não pertencer a tal estirpe. Meu mundo é bem melhor!!!
por ***Heitor Alexandre Trevisani Lipinski ***